agosto 20, 2008

Debates em Economia

No blog do Freakonomics, Justin Wolfers relembra um texto de George Stigler, publicado no Journal of Political Economy. Deixo um desafio aos meus amigos economistas: da lista elaborada em 1977 (sim, 31 anos atrás), quantos tópicos descritos por Stigler você ouve com frequência nos seminários que participa? Eu ainda ouço com muita frequência os itens 1 (talvez trocado por outro autor), 3, 7, 8, 9, 11, 12, 17, 18, 19, 22, 23, 25, 26, 27, 28, 29 e 30 (18 dos 32 listados). Se eu participasse de discussões mais voltadas à microeconomia, outros itens seriam incorporados à lista.

Um comentário, entretanto, do post de Freakonomics me fez lembrar de uma discussão bem elaborada ocorrida pouco tempo atrás na blogosfera (ver uma síntese dos posts aqui, no Degustibus). Justin Wolfers escreve, com propriedade, que é a rigidez e clareza do framework neoclássico que faz com que as perguntas sejam atuais: colocar uma idéia nova dentro de um paradigma reconhecido pela maioria implica, evidentemente, provar que esta idéia cumpre os requerimentos de um mesmo conjunto de condições (e, caso não cumpra, mostrar por que isto não ocorre).

Aí aparece, na minha opinião, a importância da matemática na organização das idéias, e a grande falha da formação do economista no Brasil. Não vou entrar nos exemplos listados pelo Márcio, pela complexidade, mas trazer algo mais associado ao que lemos em jornais. É impressionante como o debate, no Brasil, confunde com muita frequência o que deve ser visto como endógeno ao sistema daquilo que é absolutamente exógeno (as chamadas "driving forces" dos estudos de business cycles). E esta separação, mais do que uma questão metodológica, é um problema matemático: é impossível obter uma solução para um problema se "tudo está interligado". Se todas as variáveis são endógenas, eu não tenho solução! O melhor exemplo que encontrei está aqui, onde alguém descreve um problema que, por conceito, não pode ser resolvido: se a inflação hoje diminui a renda de amanhã, fazendo com que a inflação futura caia, então a inflação de hoje surgiu do vapor, já que, supostamente, a renda real de hoje depende da inflação passada, que estava controlada.

Entretanto, ao invés de trabalhar conceitos abstratos nos primeiros anos do curso de economia, para daí evoluir para os modelos aplicados, os cursos de graduação preferem gastar tempo desenvolvendo estritamente a matemática necessária para os problemas imediatos que os alunos encontrarão (é o cálculo para os problemas de otimização de Micro I, a álgebra matricial para Econometria e as equações diferenciais para Macro), e olhe lá! (Estou sendo muito generoso com a estrutura da maioria dos programas, admito.)

A discussão entre blogs evoluiu para a matemática como linguagem, e as supostas limitações da matemática, consideradas pela Escola Austríaca, para expressar fenômenos econômicos. Eu admito que boas idéias possam ser transmitidas fora da linguagem matemática (o próprio Keynes, na Teoria Geral, usava de conceitos básicos de cálculo, como a propensão marginal ao consumo, ainda que o livro não tenha uma equação). Entretanto, idéias somente sobrevivem se não forem falseadas pelos fatos. Aí, um mínimo de estatística e econometria é fundamental. E econometria bem feita, só com uma boa base matemática. Podemos discutir a matemática como método para apresentar idéias, mas não há discussão que a boa base matemática comprova a validade de uma idéia.

Por fim, voltando a Stigler, um pedido aos colegas: não usem a lista para fazer "perguntas inteligentes"!!! Todo mundo conhece aquele tipo que faz sempre a mesma pergunta em todo o seminário que participa, e sempre com aquela pose de "agora vai a minha pergunta inteligente". Em 99% dos casos, a "pergunta inteligente" está contida nesta lista. Então, por favor, mais uma vez, um esforço não vai mal nos debates, ok?

Abraços!

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